quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Bicho peçonhento


dema

Como é terrível o abraço da serpente,
qual torniquete a matar por asfixia
incautos animais, pegos de repente,
pois do perigo, ninguém lhes noticia.

Bicho ardiloso, demônio natural!
Não foi à toa que Eva, negligente,
fez Adão pecar, embora inocente,
parecendo, a Deus, ter escolhido o mal.

Sorrateira, malfazeja, venenosa!
Mordes o calcanhar, eis que perigosa.
Se o Diabo enxerga em ti certo glamour,
nós outros sentimos repulsa e pavor.

Longe de mim, língua comprida! Olhuda!
Em vez de no bico de um grande urubu,
quantas vezes te vi, magrela e pançuda,
digerindo bichos maiores que tu.

Maldito sejas, reptante peçonhento!
Quero – te a torcer, cabeça decepada,
e ver se, ao depois de à morte condenada,
cessas de causar temor ou sofrimento.

Pura  verdade, de ti, morro de medo,
do que não me avexo nem guardo segredo.
Se grande ou pequena, com ou sem veneno,
dou adeus ligeiro, sequer faço aceno. 


terça-feira, 28 de novembro de 2017

Participe!

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Quem é pai de quem?


dema

E me ponho a matutar: foi deus que criou o homem ou foi o homem que criou deus?
Quem é pai de quem?
Nos anais da História, deuses, filhos de deuses, semideuses, anjos e demônios povoam a mente humana, fértil e crédula. Talvez isso seja fruto da sensação de dependência, de insegurança quanto ao próprio destino, da presença do mistério da existência num universo em transformação perene, de encontrar-se - ser astuto - inserido num universo inteligente. Têm o mesmo DNA. Não que a matéria pense, posto que em potência a contenha (- inteligência - ou se auto organiza de maneira engenhosa ou alguém com genialidade o faz) ou a reproduza em seu transformar-se. “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” (Lavoisier)
O homem e o universo, por si sós, não se explicam. Quem sabe um ser poderoso, metafísico, seja a razão de tudo.
Melhor projetá-lo, sábio, quiçá eterno, para justificar o misterioso existir, ser causa da realidade que afronta o ser humano e do destino que a este se reserva.
O medo, a insegurança e a incerteza induzem à projeção das divindades. E são tantas, como tantos os credos.
E ainda que se imagine a divindade um ser perfeito, eterno, racionalmente não se encaixa no intelecto humano a admissão do existente não nascido. Perfeição e eternidade são dimensões, na praxe, imensuráveis ao intelecto humano, afeto ao temporal. Há que tornar-se objeto de fé, até porque crer é mais cômodo do que duvidar, é mais palatável do que sentir-se ao léu quanto ao presente e ao futuro.
E o questionamento inicial permanece: foi deus que criou o homem ou foi o homem que criou deus? Quem é pai de quem?

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Sob escombros


dema

Arandelas tremem nas paredes,
lustres balançam sobre nossas cabeças.
Tumulto. Gritos, derrubar de cadeiras.
Pessoas tropeçam e correm.
A morte chega por insistentes abalos.
O terror estampado nos olhos esbugalhados
potencializa a estridência dos berros.
O teto vem abaixo. Esmaga retardatários.
Dentre eles, eu.

Carros se chocam nas ruas,
postes de luz vêm ao chão,
gente eletrocutada.
A crosta, com fendas no ventre,
engole veículos, pontes e edifícios.
Imensurável a duração infindável dos segundos
de intermitentes abalos.
Quanta gente morta! Choro, gemidos, desespero...
e solidariedade.

Não me sei consciente ou não.
Longe no tempo, o mistério dos primeiros encontros:
coisas minúsculas assumem feições gigantescas.
Será que não gostou de mim?
Treme-se apenas por um desvio de olhar.
Frio na barriga, porque não me sorriu quando lhe sorri.
Hormônios de gênero se digladiam com fome e medo.
Talvez se fundam.
Almas se conturbam aos receios próprios do enigma,
pois que ainda estranhas.
Tudo é terremoto.

http://www.demasilva.com.br/PINEDITOS/SOB_ESCOMBROS.html

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Desperta, poeta!


dema

É passado um tempo em branco
e em breu.
Nada de ilusões, imagens e desejos
- névoa gelo –
- negro blue.
O mundo espera ansiosamente sua palavra
maléfica, patética, poética,
benéfica.
Teme o cogumelo atômico,
o estupro,
a degola,
a fome.
Onde o perfume da flor,
a luz do luar,
o som do violino,
o verde do mar?
­─ Acorda, poeta!
Solta o verbo,
a pomba da paz,
o sono tranquilo,
a noite de estrelas,
o azul e o mar!


sexta-feira, 20 de outubro de 2017

É no poema


dema

É no poema que rezo meu credo,
proclamo amor, incrimino maldade,
canto beleza, ternura, amizade,
enalteço paixão, grito teu medo.

É no poema, que eu brado meu ódio
ante qualquer tipo de covardia,
se só a bondade é digna de pódio,
o mal, sequer, existir, deveria.

É no poema que choro o destino
de quem jamais soube o que é ser feliz,
pois, declinado do plano divino,
seguira, na vida, o próprio nariz.

É no poema que a ti me declaro
uno minh’alma co’a que te tomei;
na profusão de prazer sem reparo,
visto meus versos com trajes de rei.

Ébrio, aspiro o perfume das flores,
invejo-te o néctar, qual colibri;
expilo fel sofredor dos amores,
se acaso me queres longe de ti.

Sorvo da dor que carregas no peito,
da solidão estendendo os teus dias,
da vil saudade a roubar-te o  direito
de um coração vertedor de alegrias.

É no poema que mato a saudade,
como também nele te denuncio.
É no poema que castro a maldade,
salvo o amor de morrer por um fio.

É no poema que sonho acordado,
faço da noite uma só fantasia;
busco tecê-lo sempre arrematado
co’a joia mais fina, a poesia.









EM DEMASILVA

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Devagar


dema

Tem-se, ora, disponível todo o tempo
para medir e acompanhar o próprio tempo.
Vê-se espaçar-se o tic do tac.
Sem pressão, a corda perde força
e o mundo gira mais devagar.
Cabem, assim, mais pensamentos e lembranças no minuto.
A nuvem desliza no espaço lentamente,
desforma-se e reforma-se,
um feitio novo por redesenho.
O colibri acelera o bater de asas e adeja no ar trêmulo de primavera.
O néctar mela o bico e a flor se dobra.
Grupo de incontáveis formigas céleres
desloca morosamente o enorme inseto pela trilha.
O cão esparramado sonha no piso frio da varanda.
Se passarem as horas da tarde alongada,
talvez chegue o amanhã.
Pena que sonolento também esteja o estro,
ou dezenas de poemas nasceriam.
É a paz de alma em calmaria,
da consciência indolor,
vazia de motivos de remorso.
É o tempo se dando tempo
no azáfama contemporâneo.
É a vida gota a gota
a perenizar efemeridade.

EM DEMASILVA